Felipe Andreoli, baixista de peso

Crédito: Raony Correia

Felipe Andreoli toca baixo na banda de metal Angra e tem uma discografia bem diversa. Foi num intervalo da finalização do seu novo disco solo em casa que conversamos sobre discos abandonados, Spotify, tocar no Japão e fones de ouvido.

Alexandre Algranti – Felipe, como baixista do cenário de heavy metal, como você faz para preservar a sua audição?

Felipe Andreoli – Ha muitos anos eu uso monitoração in-ear no palco, que é um local com altos níveis de pressão sonora. E isso me traz muitas vantagens pois dá para se ouvir bem mais baixo já que o fone é moldado no ouvido. E também dá para ter uma monitoração personalizada, eu uso um sistema que permite fazer a mixagem pelo celular em tempo real. Então durante o show dá para fazer uma sintonia fina e quanto melhor eu ouço menor pode ser o volume.

Isso com certeza a longo prazo vai me ajudar a preservar a minha audição. E mesmo em casa eu prefiro tabalhar num volume tranquilo, confortável e que não vá me prejudicar a longo prazo.

É uma delícia ouvir som alto mas depois de um tempo você começa a sentir aquela fadiga. Então seja trabalhando ou ouvindo música eu procuro um nível de volume confortável para não ter problemas logo mais.

AA – Qual a importância dos fones no seu trabalho?

FA – É total, e não só no palco. Para eu usar o fone no palco ele precisa responder aquele grave do baixo. Porque se não você acaba compensando com o volume do amplificador no palco. Eu uso um fone com três drivers, sendo dois para graves e um para médios e agudos.

E mesmo aqui em casa quando estou mixando eu confiro a mix no fone. E muitas vezes eu acabo mixando no fone pois estou com um bebê pequeno em casa então nesse caso um bom fone é fundamental.

Algumas vezes utilizo fones de ouvido comuns, não são fones para mixagem, para ter a referência de quem vai ouvir depois.

AA – Qual fone você usa no estúdio?

FA – No estúdio eu uso um fone da Audio-Technica que nem sei o modelo, eu ganhei ele no Japão há muitos anos atrás.

Em casa eu vou de Bose QC 35 e Airpod Pro da Apple também. No palco eu uso um Ultimate Ears customizado.

E tenho bastante fones da Edifier que é uma marca que me apoia há algum tempo. Eles tem tanto fones sem fio Bluetooth como com fio e é incrível, eles tem um custo benefício muito bom e entregam uma qualidade bem legal. São fones que eu uso para ouvir as minhas mixes também.

AA – Você consome música em MP3?

FA – Ouço. E não tenho vergonha nenhuma de dizer que a diferença que eu sinto entre um arquivo WAV e um bom MP3 é muito pequena. Eu vejo que muita gente vai na onda do arquivo “lossless”, do arquivo sem compressão, quando na verdade nem sabe qual é a diferença.

Tem um certo fator mágica quando você diz que o arquivo é sem compressão. É lógico que existe, e quem trabalha com áudio sabe qual é, mas isso é uma coisa que não me incomoda nem um pouco. Com um MP3 convertido em um bit rate alto eu não sinto uma diferença significativa não.

AA – Mas se você tiver a opção, qual você prefere escutar ?

FA – Para curtir música eu não sinto a diferença entre um e o outro. Claro que para entregar um arquivo para um disco, essa diferença para mim é mais porque um arquivo WAV pode ser manipulado, pode ser tratado, e você sabe que ele não vai perder a qualidade. Com o MP3 você começa a destruir ele, quanto mais você mexe mais você destrói.

Pegar uma master em WAV e converter em MP3 a 320 kbits / s com um bom conversor, para mim está valendo.

AA – Qual formato você curte mais, vinil ou CD ?

FA – Para falar a verdade há muitos anos não tenho mais tocadiscos, então é o CD. Hoje em dia eu entendo as limitações do vinil, por mais que tenha aquela coisa romântica que colocar um disco no tocadiscos e ouvir aquele trabalho a gente sabe que a master para o vinil tem uma série de limitações para poder funcionar nesse formato.

Como por exemplo tudo abaixo de 200 Hz tem que ser mono senão a agulha não dá conta de reproduzir as frequências baixas, os sulcos gravados no vinil para os graves, se eles forem muito profundos a agulha vai pular e aí você não vai nem conseguir ouvir a faixa.

Em termos de espéctro sonoro eu acredito que o CD seja mais completo. Mas não tem aquela coisa romântica de você abrir aquela encarte de formato grande, colocar a agulha, ouvir aquele barulinho de quando a agulha encosta na bolacha.

Então são experiências diferentes e eu não penso em termos da qualidade de áudio mais na experiência que você tem quando você ouve aquilo.

AA- Então você é mais um melômano do que um audiófilo…

FA – Com certeza, eu sou muito mais pelo material artístico daquela composição do que exatamente pelos aspectos técnicos da audição.

AA – Outro dia no site do Rush eu li que o disco Presto tinha o lado A gravado mais baixo do que o B para caber as músicas. E tinha uma instrução de tocar ele mais alto para compensar.

FA – Outro dia eu descobri que as faixas do vinil mais longe do centro soam melhores que as mais próximas…

AA – Isto tem haver com a velocidade linear da agulha que vai caindo a medida que se aproxima do centro do disco.

Nessa linha, tem um disco do Todd Rundgren, o “Initiation”, que vinha com trinta minutos por lado do vinil. Uma nota técnica na contracapa avisava que se agulha estivesse gasta iria destruir os sulcos e sugeria gravar o disco em cassette para ouvir mais alto…

É uma tecnologia eletromecânica do final da década de 1940, bem vintage, e está presa ao Zeitgesit da época, os caras estavam saindo do gramofone mecânico.

FA – Interessante…

AA – Agora você foi convidado para tocar num show em Marte, são dezoito meses na nave. Quais cinco discos você levaria na sua mochila espacial ?

FA – Eu levaria o “Moving Pictures” do Rush, o “Awake”, do Dream Theater, o “…And Justice for All” do Metallica, o “Heavy Weather” do Weather Report e o primeiro “Elektric Band”do Chick Corea.

Eu furei eles todos de tanto ouvir, fazem parte da minha educação musical. fazem parte da trilha sonora da minha vida. Esses discos fazem parte da minha formação musical.

AA – Nestes dias de isolamento pandêmico o que está rolando na sua playlist ?

FA – O meu disco novo, tenho ouvido direto. Estou num processo de refinamento. Mas eu sei que tem um momento que você mexe demais no que estava bom.

AA – Você concorda com a máxima que um disco nunca é terminado mais abandonado?

FA – Certamente com todos em que eu trabalhei até hoje, certamente. Não tem nenhum em que pude dizer que gastei todo o tempo que eu queria, cada nota está do jeito que eu queria, não. Não mesmo. Mas também se não tem um prazo você não termina o trabalho.

Conheço artistas que tem essa paranóia de que todas as notas tem que estar perfeitas, não é prático, você precisa terminar o projeto e focar os seus esforços numa nova coisa. As músicas ficam velhas para você, quando você lança você já está enjoado.

No próximo disco você melhora, e aí repete tudo de novo.

AA – E além do seu novo disco ?

FA – Silverchair, Tribal Tech, Allan Holdsworth, e das mais novas, Tesseract, uma banda inglesa muito boa, Periphery, uma banda americana e uma banda holandesa que até já acabou que se chama Textures.

O que eu faço muito é colocar o Spotify no modo “shuffle” e vou ouvindo, faz tempo que não tenho vontade de ouvir um disco do início ao fim. Eu faço isso com poucos discos, os do Seal por exemplo, os do Tears for Fears eu ouço de cabo a rabo.

AA – Você concorda com o Daniel Ek, CEO do Spotify, que o músico tem que trabalhar mais, que nào dá mais para lançar discos a cada três ou quatro anos e tal?

FA – Eu concordo e discordo. Eu concordo que ser produtivo é uma necessidade, que o músico as vezes fica naquela de procrastinar, mas discordo de duas coisas.

Primeiro, que ele não é o cara que tem que falar nisso. Porque o cara que está lucrando cada vez que você trabalha, ele tem que ficar quieto e não ditar o ritmo de que o músico tem que trabalhar.

E segundo porque cada artista tem o seu ritmo, tem caras que lançam discos a cada dez anos, e são discos geniais. Se você pegar esse cara e mudar o processo dele, você vai mudar a arte dele para ele se adequar a realidade das plataformas de streaming? Não, vai tomar banho !

É claro que o artista pop talvez sim, talvez tenha que lançar mais singles hoje do que lançava a cinco anos atrás. Mas tem outros artistas que não estão nem aí para o Spotify. O cara pensa na música e na arte e o Spotify é uma das maneiras pelas quais as pessoas vão consumir a arte dele.

E nesse caso o CEO do Spotify é o último cara que tem que abrir a boca para ditar como um músico vai trabalhar. Ele vive por causa do músico. E não ao contrário. O Spotify é uma das plataformas que os músicos tem para atingir o seu público. Então ele tem mais é que ficar quieto na dele.

Já é uma coisa extremamente desbalanceada entre músico e plataforma na questão da distribuição dos direitos. A distribuição do direito autoral ainda é uma bagunça, que é uma responsabilidade deles que estão vendendo a música e lucrando com isso. Então, assim, fica na sua meu irmão, você não tem nada do que falar.

Concordo que tem que ser produtivo, mas se for uma coisa que cabe na sua arte, no seu processo artístico. Do contrário, a música que vem primeiro, não é a venda que vem primeiro.

AA – Hoje a indústria da música faz parte da indústria da tecnologia da informação. O músico sempre vendeu informação, mas antes era um disco, uma coisa isolada, mas hoje o músico encara uma arena gigante com música por todos os lados, indexada, relacionada e categorizada…

FA – Ao mesmo tempo que o músico tem que saber tirar vantagem dessas plataformas pois não tem como escapar, no momento não existe alternativa viável para você atingir muita gente.

Mas essa coisa de música a granel tem feito a qualidade despencar assustadoramente rápido. A qualidade da música pop no mundo inteiro está caindo vertiginosamente. Por causa da necessidade de entregar o single para o próximo carnaval, o próximo verão, o próximo rodeio, todos tem que ter um novo single.

Então a qualidade fico atrelada a velocidade com que você pode entregar. Isso para a música pop. O artista que faz a música com verdade não pode se render a esse tipo de dinâmica porque senão você vai empobrecer toda arte como um todo.

É uma pena porque você vai tirar do mundo a possibilidade de criar grandes obras simplesmente porque o cara não tem mais tempo de fazer aquela imersão, aquela procrastinação artística que todo grande artista tem, que não produz música numa linha de produção. E você vai perder uma beleza e uma qualidade artística que não tem volta mais.

O artista não tem que se render mas se você é pop e depende de hits para sobeviver, para viver para o próximo show, aí ele fica meio escravo desse processo.

AA – O Spotify anunciou recentemente que irá oferecer streaming em qualidade CD. Será o fim das compras físicas do formato ?

FA – Eu acredito que o cara que compra CD hoje não pela qualidade sonora superior ao streaming lossy. Ele está comprando pelo produto físico em si, pela necessidade de pagar aqui na mão, de materializar. É uma coisa que ele vai guardar, ele vai ler o encarte, ele vai guardar na prateleira na coleção de CDs dele.

Muita gente que compra música hoje, por mais que tenha acesso a arquivos de alta qualidade ainda quer ter o produto. E são poucos. Nós atingimos o vale das vendas de CDs mas sempre vão ter pessoas que vão querer o CD, o DVD e o vinil. Eu não creio que a maioria esteja preocupada com a qualidade de ter o CD e sim pelo produto físico, pelo pacote, pela arte. Por tudo que vem junto.

AA – E qual o melhor show que você já tocou com o Angra ?

FA – Na minha primeira vez no Japão em 2002. Foi muma coisa muito surreal. O Japão é um local onde você realmente sente que está num lugar diferente. A cultura, a mentalidade, e com pessoas que apreciam a música muito profundamente. Respeitam o artista e a música como em nenhum lugar do mundo eu experimentei.

Eu rodei o mundo tocando com o Angra mas tocar no Japão foi realmente impactante. Eu falava “Putz, que lugar é esse? Uma gente respeitosa, educada, disciplinada. Como tudo funciona aqui! Que maravilha, que paraíso um artista chegar num país como esse e ser tão bem tratado!”

Foi muito legal.

AA – Rolou um lance meio Beatlemania, tipo A Hard Days Night ? De não poder sair do hotel, de sair correndo na van ?

FA – Não nesse nível. Todo lugar que você vai os fãs ficam te esperando com umas pastinhas e eles são super educados, super organizados. Eles ficam com os encartes abertos na página com a sua foto e pedem para você autografar. E depois no hotel vão pedir de novo para você assinar. Eles respeitam o seu tempo e e sacrificam o tempo deles para que você aos poucos assine todas as fotos.

É uma coisa muito louca. O nível de educação e de respeito pelo artista é realmente um negócio que não existe em lugar nenhum do mundo. É muito louco.

Publicado por Alexandre Algranti

Estudou engenharia, marketing e finanças mas quer mesmo ser jornalista. Continua na busca do fone de ouvido perfeito mas espera jamais encontrar.

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