Rafael Bittencourt, pesquisador musical

Crédito: Júlio Mendoza

Rafael Bittencourt é guitarrista do Angra e do Bittencourt Project. Conversamos sobre artistas bregas, shows em Paris com o Bruce Dickinson e fones de ouvido, lógico.

Alexandre Algranti – Rafael, como profissional da música e de áudio, quais são os cuidados que você toma com a sua audição?

Rafael Bittencourt – Primeiramente eu não gosto de ouvir música alto. Nunca gostei de ouvir música extremamente alta. Eu gosto de ouvir música no volume que eu consigo perceber, toda vez que escuto música eu estou percebendo e pensando a música, eu estou notando os elementos dentro da música e fazendo como se fosse anotações internas na minha mente. E se a música está muito alta eu não consigo pensar assim.

Então é assim, volume moderado. E se eu estou num ambiente com muito barulho eu coloco um plug, até no trânsito as vezes. Eu até durmo de plug, sou viciado no tampão de ouvido. Eu moro em São Paulo, uma cidade barulhenta, aqui é difícil a gente preservar cem porcento a audição mas na medida do possivel eu faço isso.

AA – E qual a importância dos fones de ouvido no seu trabalho?

RB – Os fones são um adereço importante porque eu faço reuniões, eu ouço música com fones, eu assisto filmes, eu componho e produzo no computador. Então os fones de ouvido se tornaram um equipamento muito presente na minha vida pessoal e na profissional.

Eu tenho vários modelos, desde um mais simples que está sempre a mão para usar com o telefone como estou usando agora. Esse tomou chuva e não está nos melhores dias, está rachando algumas frequências aqui. Mas é tão importante ter um fone por perto que ele resolve.

Eu eu tenho fones melhores para gravar e trabalhar o áudio.

AA – E qual o fone que você está usando no seu estúdio?

RB – Eu uso dois fones, o AKG K501 que eu gosto pois ele não isola totalmente e você consegue ouvir o ambiente externo. Quando estou compondo e gravando eu gosto de ouvir o som do violão, eu gosto de ouvir o som do ambiente.

AKG K701 / Crédito: AKG

Eu também uso um Audio-Technica ATH-PR05V que eu tenho ha muitos anos.

Audio-Technica ATH-PR05V / Crédito: Audio-Technica

Eu geralmente não finalizo nada em casa, costumo a enviar para produtores parceiros então esses dois fones me atendem perfeitamente.

AA – E no palco, qual fone você utiliza?

RB – Eu uso um in-ear da Shure comum que você encontra nas lojas que me atende super bem. Eu tenho também um fone moldado que inclusive é fabricado no Brasil da Extreme Ears com quatro transdutores.

Eu já tive muitos fones, tive um da Ultimate Ears que coloquei no bolso depois do show e acabou na máquina de lavar roupas…

Como eu preciso muito de fones no dia a dia eu preciso de uma reserva, então para não esquecer eu sempre deixo na minha mala, então ao invés de comprar um do nível do Ultimate Ears eu compro vários fones básicos.

O mais importante aqui é ter um fone para usar do que não ter…

AA – Você consome música nos formatos comprimidos?

RB – Sim, sem problema algum. Eu não sou audiófilo, eu não sou aquele cara purista, eu não tenho essa sensibilidade tão extrema na minha audição.

A minha sensibilidade está na interpretação dos sons na verdade. Muitas vezes eu construo a música na minha cabeça. As vezes eu escuto música direto no celular, tipo radinho de pilha, aquela música que eu já conheço na minha cabeça.

Então a minha audição é muito mais “pós ouvido”, eu gosto de interpretar os sons com as minhas impressões que são sempre muito simples, reducionistas, eu pego e simplifico a música que eu estou ouvindo em ritmo, harmonia, melodia e letra muitas vezes.

AA – Então você é mais melômano que audiófilo…

RB – Sim.

AA – Mas se você tiver a opção, você vai de WAV ou de MP3?

RB – Depende. Eu ouço muito o Spotify que não é MP3 e que tem uma qualidade boa…

AA – É o formato “Ogg Vorbis”…

RB – Eu ouço muito o Spotify pela praticidade, tem tudo ali. Se eu for colocar na balança a questão do WAV, eu preciso ver o quão prático é ouvir o arquivo em WAV naquela hora.

Mas quando eu trabalho gravando no Pro-Tools eu certamente trabalho no formato WAV.

AA – E falando em formatos, você curte mais CD ou vinil?

RB – É a mesma questão. O vinil é uma outra experiência, é mais tátil, é mais grande. O CD é menor, mais fácil de guardar, tem uma sonoridade muito boa mas não tem aquela experiência tátil. Você pegar e passear com o CD não é a mesma coisa.

Porém eu tenho uma edição do album “Pulse” do Pink Floys em CD que tinha aquele led pulsando na embalagem que para mim representa o auge do CD.

Eu não tenho tocadiscos em casa, somente no meu sítio no interior, mas também eu não tenho ouvido CD, tenho ouvido tudo através do celular pelos serviços de streaming.

Acho que o streaming se tornou, pela praticidade, o meu uso mais corriqueiro. Mas tem muita coisa que eu ouvia no vinil, com aquele romantismo, tem uma música que eu tenho uma relação emocional por conta do vinil.

AA – O Spotify recentemente anunciou qe vai começar o streaming em qualidade CD. Isso deve dar um impacto forte na indústria. Pagando o equivalente a um CD por mês para ter acesso a tudo…

RB – Eu tenho o pacote mensal família e é ótimo, todo mundo ouve música aqui. O mais importante é a música, a música tem que fazer parte da vida da gente. A cultura de se preservar o documento musical tem que estar presente.

AA – Você foi convidado a tocar em Marte. Quais cinco discos você levaria na mochila?

RB – Já que vou para Marte vou levar cinco discos especiais para os marcianos conhecerem.

Eu levaria o “Gita” do Raul Seixas, o “Human Being” do Seal, o “Elis & Tom” da Elis Regina e Tom Jobim, o “Passion” do Peter Gabriel, a trilha do filme “A Última Tentação de Cristo” e o “Pulse” do Pink Floyd.

AA – E o que está rolando na sua playlist?

RB – Ouço de tudo. E ouço muita música com minha esposa, alternando as escolhas, ela bota Daniela Mercury e Raça Negra, e eu coloco Seal e Peter Gabriel. Ela bota Cazuza e Legião Urbana e eu Raul Seixas, Leprous, Contorcionist, Opeth, Porcupine Tree, Simply Red, Lenine, Carlinhos Brown, Marisa Monte, U2, The Killers, Muse, Red Hot Chili Peppers, Plini e outros.

AA- Sensacional !

RB – Estou com o Spotify aberto aqui e eu e minha mulher selecionamos os artistas. O Spotify nem me reconhece mais tamanha a mistureba… Tem Odair José, Antonio Marcos, eu gosto, Wando, José Augusto, Gilliard, Leandro e Leonardo, Zezé de Camargo e Luciano.

Eu gosto de brega, de brega antigo, eu gostava muito de ouvir rádio AM.

Eu tenho um playlist chamada “Paciência” baseada naquela música do Lenine onde eu coloquei “Mercy Street” do Peter Gabriel, “High Hopes” do Pink Floyd, “É d’ Oxum” da Rita Benedito, “Metaphors” do Seal, “O Tempo Não Para” do Cazuza, “Blood of Eden” do Peter Gabriel e “Malandragem” da Cássia Eller.

Eu tenho uma outra playlist só de rock mais pesado chamada “Contortionist” pois a banda Contortionist me inspirou a fzer essa lista, com as bandas Contortionist, Sleep Token, Gojira, Opeth, Tesseract, Leprous, Haken, Muse e por aí vai. Tem Porcupine Tree e Riverside.

As vezes eu estou em outro clima, então tenho uma playlist chamada “Birthday” que eu criei quando eu fui contratado para tocar numa festa de aniversário de um fã que tem Bob Marley, Peter Gabriel, U2, The Killers, Pink Floyd, Jimi Hendrix, Stevie Ray Vaughn, Whitesnake, Seal, Bruce Springsteen, Van Halen e Journey.

As vezes eu estou um pouco mais com a música brasileira então eu vou de Ivan Lins, Djavan, Caetano Veloso, Tom Jobim, Milton Nascimento, Gilberto Gil e Chico Buarque, depende no meu estado de espírito.

AA – E qual o show do Angra que você mais gostou de tocar?

RB – Essa é uma pergunta muito difícil, me vem muitos shows a cabeça. Tem um que eu sempre comento que foi um show que fizemos no Le Zénith em Paris, uma casa enorme do tamanho do Anhembi com acústica e som excelentes.

Nesse show tivemos o Bruce Dickinson, vocalista do Iron Maiden, como convidado especial, na época em que ele estava fora do Iron maiden e com o seu disco solo. Então a gravadora falou para ele participar pois o Angra era uma banda muito bombada na França e seria bom para a carreira dele participar.

AA – Você concorda com o Daniel Ek, CEO do Spotify, que o músico tem que trabalhar mais, que nào dá mais para lançar discos a cada três ou quatro anos e tal?

RB – O Daniel Ek veio com uma fala muito corporativa, não é uma fala de artista.

Na verdade o cenário mudou e a gente precisa se adaptar.

A gente não pode achar que as regras do passado não funcionam para hoje.

Eu também não vejo com maus olhos a gente ter que produzir cápsulas menores de conteúdo e aqueles albuns maiores isso não fica tão fácil. Isso para uma realidade do Spotify.

Mas não é uma regra, é uma tendência. Você pode não atender a tendência e se guardar, e o seu público que aguarda por esse conteúdo mais consistente e inclusive aguarda o lançamento da mídia física.

O Angra por exemplo tem um público muito fiel muito leal que está sempre esperando para ter a experiência da mídia física.

Para alguns segmentos as duas coisas valem, vale sim você soltar conteúdo com maior frequência, para você poder ter mais posicionamento nas mídias de streaming você tem que sempre soltar mais conteúdo.

Mas também vale a tradição, a experiência mais tradicional daquele que aguarda o CD, um conceito, uma idéia artística na parte de design, da arte e proporcionando então uma experiência mais completa e tátil.

Todas as tendências também tem as suas contra-marés, então por mais que na visão corporativa, na visão dos números, na visão das grandes massas, os artistas precisam lançar mais conteúdo em menor espaço de tempo.

Existem também tanto artistas quanto o público que gostam de nadar contra a maré e criar e consumir conteúdo um pouco mais consistente num maior espaço de tempo. Na verdade essas tendências se somam, uma não anula a outra.

Publicado por Alexandre Algranti

Estudou engenharia, marketing e finanças mas quer mesmo ser jornalista. Continua na busca do fone de ouvido perfeito mas espera jamais encontrar.