Lawrence Shum, locutor e educador sonoro

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Lawrence Shum é locutor profissional e educador sonoro. Quando você ouve a voz dele ou tem um filme legal para começar ou está na hora de abrir a carteira e fazer e economia rodar.

Alexandre Algranti – Lawrence, como criador de conteúdo audiovisual, como você cuida da sua audição?

Lawrence Shum – A primeira coisa é evitar a se expor às intensidades sonoras elevadas. E evitar locais barulhentos, inclusive baladas, e não só por conta da pandemia. Eu evitaria ficar próximo às caixas. Quando eu vou a shows eu uso um protetor da Flare Audio, conhece? Tem um de alumínio e um de titânio, eu uso o de titânio.

AA – Não conheço mas vou comprar agora.

LS – Ele realmente atenua bem, a atenuação é expressiva. E se eu estiver em um local barulhento, eu evito falar porque para alguém me escutar eu vou ter de gritar, então eu fico na minha em tais ambientes. E a cada ano e meio eu realizo uma audiometria, o certo seria uma vez por ano. Infelizmente não consigo encontrar laboratórios que meçam altas frequências, o meu plano de saúde cobre somente até 8 kHz… O que é uma pena para profissionais de áudio como nós, o ideal seria chegar em pelo menos 12 kHz. Se você conhecer algum me indica.

AA – Vai no Dr.Paulo Roberto Lazarini em São Paulo. Eu fiz a minha última com ele. Eu provavelmente perdi uma boa parte da minha audição mas eu acredito no “calo auditivo”, o seu cérebro acessando a sua memória sonora para compensar as perdas. Senão o Pete Townsend e o Eric Clapton não conseguiriam tocar mais.

LS – Eu faço um experimento para medir a minha perda auditiva. Nas minhas aulas presenciais de locução eu reproduzo um sinal de varredura entre 20 Hz e 20 kHz e chega uma hora que os alunos ainda escutam e eu não. Só que eles são trinta anos mais jovens. Percebi que lá perto dos 17 kHz eu não ouço mais nada.

AA – Qual a importância do fone de ouvido no seu trabalho?

LS – Muito importante e em várias frentes de trabalho. Eu dou aula em graduação e nesse momento todas as aulas estão acontecendo online daqui do que meu home studio. E um fone de ouvido de alta qualidade faz uma enorme diferença. Outro dia tentei usar um fone in ear genérico da Sony mas ainda prefiro o meu Audio-Technica M50x. E as vezes eu passo algumas horas dando aula então o conforto é fundamental. Estou bem feliz.

Eu trabalho com locução também então preciso de um fone que não realce nenhuma faixa de frequência. Eu destesto fones para DJs que puxam muito os graves e os agudos, para fazer locução é horrível…

AA – Fones para DJ’s são muito ruins. É só grave. Ainda bem que a Sennheiser marketa o HD25 para os DJ’s, eles prestam um serviço de saúde auditiva…

LS – É só grave e a minha voz já tem grave. Preciso de um fone que seja equilibrado para não me dar fadiga.

E finalmente eu trabalho com mixagens. Na minha produtora temos um técnico que produz as trilhas e os jingles mas as vezes eu mixo ela junto com a locução, principalmente se for um job urgente nos finais de semana ou fora do horário comercial. O fone de ouvido ajuda bem embora eu prefira usar caixas monitoras.

AA – E você usa o ATH-M50x?

LS – Temos três unidades no estúdio. Eu adoro esse fone de ouvido. Não é o melhor fone que o dinheiro pode comprar mas na minha opinião oferece um custo benfício extremamente favorável. Pelo que ele custa ele entrega muito bem. Eu já tive um AKG K240 mas eu prefiro o M50x. Já usei os Sony 7509 e 7506 também. O M50x tem mais “punch”, tem um grave mais bonito.

AA – E qual modelo você usa para relaxar e ouvir música?

LS – É o mesmo que eu uso para trabalhar. O meu in ear genérico da Sony e o meu Audio-Technica M50x. Mas eu gostaria de usar o AKG K1000 que eu vi numa feira de high end, foi o único fone que me fez sentir não estar usando um fone. A sensação que eu tinha era de estar em uma sala com uma acústica extraordinária, parecia uma sala com um tratamento super equilibrado. Com algumas reflexões que deixam o som agradável mas sem excessos, era uma delícia. Ele já saiu de linha. Se eu encontrar usado eu compro, é fantástico.

AKG K1000 / Crédito: Divulgação

AA – Você consome áudio nos formatos comprimidos?

LS – Eu ouço arquivos comprimidos porque eu acho um mal necessário. A princípio eu não gosto muito, mas a partir do bit rate de 256 kbps fica aceitável, acho que em 320 kbps você precisa de um equipamento de altíssima qualidade para perceber as diferenças com relação a um arquivo WAV. Sem eles fica difícil até a partir de 256 kbps.

No estúdio tenho monitores Dynaudio e KRK então lá eu percebo bem a diferença. Mas no bitrate de 320 kbps você tem que prestar muita atenção para perceber. Já em casa tenho um sistema surround com as caixas Yamaha MSP-5 que eu curto para assistir filmes que é suficiente. Embora eu prefira um set up igual ao seu com as caixas Genelec 8020 e 8050. (risos)

AA – Eu não vivo sem as Genelec…

LS – Então em 256 kbps é aceitável e em 320 kbps está ok. Agora abaixo de 256 não rola, começa perder muito.

AA – Uma vez eu vi um poster na porta de um estúdio que dizia que drogas pesadas, pornografia infantil e arquivos em MP3 estavam proibidos. (risos)

LS – Que legal! (risos) Eu acho que de certa maneira os jornalistas colaboram com essa falta de critério. Eu me lembro que as primeiras matérias que eu li na Folha de São Paulo diziam que era maravilhoso, tinha qualidade CD, um som fantástico. E não é, se você pegar um CD e comparar com MP3, especialmente os com bit rate de 128 kbps, a diferença é gigante cara. É um abismo. As matérias que saíram no início contribuiram para que as pessoas acreditassem que MP3 é uma coisa boa. Mas com certeza é uma mal necessário, é um formato simples que democratiza a troca de informações. E o MP3 ajudou na época que a internet era mais lenta.

No meu site de locução o meu repertório de locução está todo em MP3 porque carrega mais rápido, ele tem a sua utilidade, tem as suas aplicações. Mas para ouvir música eu não acho que é o caminho.

AA – Tem um artigo na Sound on Sound que esgota o assunto aqui. Melhor manter os arquivos comprimidos fora do alcance das crianças…

LS – Muito bom, vou ler. Mas se você usar um fone da Dé Rreal o arquivo em 64 kbps vai soar lindo.

AA – Dé Rreal é uma marca famosa de fones de microfones.

E você prefere vinil ou CD?

LS – Nunca tive um daqueles reprodutores de CD high end. Eu trabalhei treze anos em rádio e tinham bons tocadiscos ali, mas também nenhum que chegassem perto dos modelos de audiófilos. Se eu pudesse escolher eu não ficaria com nenhum dos dois, eu ficaria com o formato Super Audio CD. Infelizmente eu não tenho um player SACD, essa tecnologia não pegou aqui no Brasil.

Mas eu estive em um estúdio de masterização em que as pessoas masterizavam SACD com umas caixas torre da Dynaudio e ao ouvir o SACD naquelas caixas eu nunca havia ouvido nada igual. Era uma coisa maravilhosa, ouvi uma peça clássica com um solo de flauta bem baixo, tinha uma clareza, uma definição, uma sutileza de cada detalhe do instrumento que era uma coisa mágica. Nenhum CD ou vinil que eu ouvi até hoje chegou perto daquilo.

Mas na ausência do SACD que eu acho ideal eu prefiro o CD, os vinis que eu tinha não me agradaram, eu nunca tive um tocadiscos de primeira linha.

AA – Quais cinco discos você levaria para uma viagem a Marte?

LS – “Help”do Beatles, a gênese de bandas como Blur, Oasis e The Verve, “Space Oddity” do Bowie, a trilha sonora para uma temporada em Marte, “The Singles 86>98″do Depeche Mode, adoro “Enjoy the silence”, “Discography” do Pet Shop Boys, as mixagens são sensacionais e o “Eu e eles” do Hermeto Paschoal, eu utilizo para avaliar caixas acústicas pois tem muitas microdinâmicas.

AA – O que está rolando na sua playlist?

LS – Hoje eu não estou ouvindo música nos equipamentos de áudio, tenho assisitdo muito os canais Arte 1 e o Curta, no Curta todas segundas feiras são dedicadas a música, sempre tem um documentário sobre um artista em particular, outro dia vi um sobre a banda Blitz e outro sobre o rock de Brasília. Já o Arte 1 tem uma série muito interessante chamado “In Concert” que transmite em surround. Então a minha playlist atual é assistir esses concertos. É uma delícia, outro dia ouvi um do Ryuichi Sakamoto muito bom, em surround, com toda aquela riqueza de detalhes não só da orquestra mas da ambiência da sala.

AA – Qual o trabalho de locução que você mais curtiu?

LS – Foi a narração da tradução para o português do “Tratado dos Objetos  Sonoros” do Pierre Schaeffer. Fiz para o Laboratório de Música e Informática da USP onde pegamos os áudios utilizados para exemplificar os conceitos do Schaeffer nesse tratado para fazer a versão brasileira.

AA – Como você descobriu o seu talento para locutor?

LS – Um dia estava ouvindo um jogo na rádio Excelsior e escutei a voz do César Foffá e caiu a ficha que era isso que eu queria fazer da minha vida. Eu liguei para a Excelsior e o próprio César atendeu.

Comecei a visitar a rádio e um dia ele me convidou para trabalhar mas acabou não rolando pois ainda não tinha completado os dezoito anos. Aos dezoito eu fiz um curso de técnico em radialismo e fui trabalhar na Rádio Imprensa.

O jornal Daily Post em língua inglesa comprou o horário noturno e o diretor Roberto Sândoli me convidou para fazer o programa de domingo sobre rock já que na época eu frequentava as casas noturnas como o Napalm. Tinha total liberdade de tocar tudo, recebia as fitas ainda no formato de rolo de artistas começando como o Fernando Deluqui antes do RPM e o Leospa do Ultraje a Rigor. Foi sensacional.

Publicado por Alexandre Algranti

Estudou engenharia, marketing e finanças mas quer mesmo ser jornalista. Continua na busca do fone de ouvido perfeito mas espera jamais encontrar.

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