Roberto Marques, engenheiro musical

Crédito: Arquivo pessoal

Roberto Marques é um pioneiro da produção fonográfica nacional desde a década de 1970. De gravadores analógicos multicanal aos modernos consoles para gravação digital e finalmente o áudio imersivo, Roberto já gravou, ouviu, fez e ainda faz de tudo no mundo áudio. Conversamos sobre smart headphones, sua predileção pelo vinil e fones de ouvido.

Alexandre Algranti – Roberto, como profissional de áudio, como você cuida da sua audição?

Roberto Marques – Como eu deveria ter cuidado (risos)… Eu no começo da carreira não tomei os cuidados, acabei destruindo um pouco a minha audição. Eu ouvia muito alto, não só no estúdio como também nos shows ao vivo, nos shows tinham os monitores de chão.

Os sistemas de reforço sonoro continuam tocando alto, já os monitores foram substituídos pelos monitores in-ear. Quando eu trabalhava operando monitor eram caixas e você sofria muito. Tomava muita pancada no ouvido. E também com a idade. Hoje sim, hoje eu tomo cuidado, nem faço opero shows ao vivo então estou melhor.

AA – Qual a importância dos fones de ouvido no seu trabalho? com áudio

RM – Primeiro com o trabalho remoto em home ofice, não tem como trabalhar sem, nao tem como ligar um par de caixas em casa. E também por que o usuário final hoje consome conteúdo com fones, não adianta pensar que alguém vai ouvir com caixas acústicas. Então é o único meio que eu tenho hoje de analisar uma mixagem é com fones de ouvido. Daqui pra frente a análise vai ser feita com o fone. Eu não posso ter uma mentira no resultado final.

Vou chutar uma porcentagem, creio que 80% das pessoas hoje ouvem música com fones de ouvido. E os outros 20% ouvem no carro porque não dá para usar fone (risos). Pouca gente utiliza caixas acústicas, provavelmente somente os audiófilos.

AA – Quais fones você usa no seu trabalho e na hora de curtir um som?

RM – Eu sou um colecionador de fones, eu tenho uns 15 aqui em casa…(risos) Tenho muitos da Sennheiser, inclusive dois HD580 Precision que uso como fone principal de mixagem. Eu tenho um novinho guardado, se um dia o outro quebrar eu não vou peder a referência. Eu não conheço os modelos que vieram depois, a Sennheiser nunca me mandou uns fones, nunca consegui um endorsement…(risos)

AA – Diz a lenda que o modelo 580 é muito superior aos modelos 600 e 650 que vieram depois. Ele tem um design lindo, espetacular. Conheço outras pessoas que também tem unidades ainda fechadas na caixa…

Sennheiser HD580 / Crédito: Reprodução

RM – Eu já tentei usar os fones da Shure, mas para mim Sennheiser ainda é a referência. Mas quando vou mixar em estéreo eu uso o HD25, conhece?

AA – Tenho uns quatro HD25 SP jogados pela casa, soam tão macios como as espumas dele. E por coincidência estou usando ele agora. Eu amo esse fone, me sinto o Ralf Hütter do Kraftwerk.

RM – O pessoal de cinema adora ele, o pessoal que faz som direto. É fininho, fácil de levar. Eu tenho um Bose também, um dos primeiros Quiet Confort, com cancelamento de ruído. E tenho um JBL para videoconferência, muito confortável, com entradas analógica e USB.

Agora para relaxar e curtir música estou usando o Airpods Max que para mim é muito bom. Para ouvir música é impressionante. Por coincidência estou usando um Max aqui agora…

AA- É comfortável como parece nos vídeos no site da Apple?

RM – É confortabilíssimo, para começar você nao sente o fone na cabeça. E a qualidade de áudio é impressionante. Eu ouço coisas nele de mixagens que eu fiz que eu não ouvi nos meus Sennheiser. E o cancelamento de ruído é impressionante. A pessoa para do seu lado e começa a falar e você não ouve o que ela está falando. Eu ainda não mixei nada com ele e quando ainda tenho que mixar eu uso o meu Sennheiser HD580. Eu já aboli as caixas acústicas… E tenho um monte delas, tenho até as B&W.

Hoje o produto final vai ser ouvido em fones, não adianta você dizer “aqui no estúdio, vou ouvir nas minhas caixas B&W com aplificador valvulado”, você vai produzir para você, vai ficar um puta som, mas na hora de ouvir no fone vai ficar diferente.

AA – Até começarem a fazer implantes cerebrais em recém nascidos o fone de ouvido continuará como a interface homem máquina definitiva. Em com uma tecnologia embarcada absurda, já estão desenvolvendo sensores cardíacos, para açúcar no sangue, temperatura corpórea, e até para auxiliar os deficientes visuais a navegarem pelas ruas.

Fora o lance de áudio imersivo, eu li que a Apple está desenvolvendo uma tecnologia e que o Apple Music terá áudio imersivo. Quero ouvir o Hendrix do meu lado…

RM – Esse fone já é compatível com o Dolby Atmos e decodifica filmes e músicas mixados nesse padrão. Aliás todos os dispositivos de áudio da Apple já são compatíveis com o Dolby Atmos.

O Airpod Max é Bluetooth e agora estou falando com você via o meu Macbook. Se eu titar o fone ele desconecta automaticamente. E se eu na sequência abir o aplicativo Apple Music no meu iPhone e vestir o Airpod ele automaticamente sincroniza com o telefone. O fone sabe que você está usando outro dispositivo. É muito louco! É muito inteligente! E é muito caro, um fone desses custa R$ 6 mil e poucos no Brasil.

Na entrada do lendário Abbey Road Studios com o também veterano Paulo Fahrat / Crédito: Arquivo pessoal

AA – Você acha que o Airpods Max é um salto quântico em termos da tecnologia dos fones de ouvido?

RM – Com certeza, eles realmente se propuseram a fazer um produto de altíssima qualidade. Claro que o audiófilo vai falar que não é por ser Bluetooth e não com cabo.

AA – O fone de ouvido virou um verdadeiro “smart headphone” e isso impactou muito os fabricantes tradicionais. E com produtos com muita tecnologia embarcada é outro mundo, o Apple Airpods Max por exemplo tem um chip H1 com 10 núcleos para áudio.

RM – É um produto impressionante.

Apple Airpods Max / Crédito: Reprodução

AA – Será que vai ter conteúdo imersivo produzido no Brasil na Apple Music?

RM – Eu sou um desenvolvedor certificado Atmos e já estou remixando alguns produtos em Atmos para fones, essa é a grande viagem. Poucos vão ter sistemas em casa tipo Atmos 9.4.2, é mais com fones de ouvido e soundbars. Tem um soundbar da Bose que é muito boa a simulação, é quase perfeita.

AA – Você costuma a consumir áudio com compressão ou você prefere a qualidade CD?

RM – Hoje você consegue nos serviços de streaming diferentes níveis de qualidade sonora. O codec AAC é uma grande evolução na compressão do áudio comparado ao MP3. Mas a gente que tem o ouvido educado acaba ouvindo os artifícios da compressão em MP3 que soa uma porcaria…

Eu tenho bastante material gravado em alta resolução . E também estou envolvido num projeto de uma rádio que só vai tocar discos de vinil digitalizados em alta resolução. Que para mim é o melhor jeito de se ouvir ainda. Mas é difícil conseguir um equipamento de alta qualidade para reproduzir, é muito caro. Hoje tem empresas até vendendo discos no formato de fita de rolo analógica.

AA – Então você prefere o formato vinil ao formato CD?

RM – O CD tem limitações que vem do projeto inicial, ele ainda está preso no formato 16 bits com 44.1 kHz. Mas o CD acabou, não existe mais. Mas eu prefiro o formato de vinil na atual iteração, com melhorias desde o corte do acetato até a sua prensagem, virou uma coisa muito mais moderna e ao mesmo tempo mais artesanal.

Antigamente quando era produzido em massa o produto era muito ruim. E a matéria prima influencia muito no resultado. Quando se produzia na escala de um milhão de cópias a qualidade sonora sofria muito. Eu trabalhei nas fábricas da Copacabana e da Odeon, eles reaproveitavam o material dos discos devolvidos pelas lojas. Tinha uma máquina que cortava o selo fora e virava porta copos.

AA – Eu nunca entendi porque a região do selo não podia ser derretida junto. Um amigo me dizia que quem conseguisse a façanha de retirar os selos ficaria milionário. Intuitivamente ao derretermos o vinil o papel iria vaporizar…

RM – A temperatura no derretimento do vinil não é suficiente para queimar o papel então estaríamos contaminando o vinil com um elemento estranho que iria comprometer a prensagem. Virou um monte de porta copo. (risos)

AA – No Brasil eles levaram ao limite, 120 g, 100g , beirando aqueles flexidiscs que vinham encartados em revistas. (risos)

RM – E tudo isso gerava muita distorção, por ser muito leve o disco vibrava e transmitia o ruído do motor. Mas hoje melhorou muito.

AA – Hoje tem vinil com 200g, estampado direto da primeira matriz, limitado a 1000 pensagens e tal que nos EUA chegam a custar $ 1.500,00, uma loucura.

RM – O CD responde em tese entre 20 Hz e 20.000 Hz, se não for menos em função do aparelho. E o vinil não, os sub harmônicos vão embora, não tem um limite como no CD. Os graves soam diferentes, pela tal da curva de equalização RIAA. Não sei se você já reproduziu um vinil sem passar por um pré de phono.

AA – Já fiz isso com o auxílio de um computador, gravei o áudio direto do tocadiscos…

RM – O som é horrível. A curva RIAA compensa o que é retirado para que você possa cortar o acetato, sem ela você iria precisar de um disco com 200 polegadas para caber todo o grave.

AA – Ou um disco de 12 polegadas com 3 minutos gravados…

RM – Quanto mais graves no corte, maior a largura do sulcos laterais, e menos delas por lado de um disco. Ms o vinil é bonito, é um objeto tátil, tem a capa. Combina com a taça de vinho.

AA – Você foi chamado para produzir um disco em Marte, são três meses de viagem. Quais cinco discos você levaria na mochila? Mas não pode ser nenhum dos milhares que você já produziu…

RM – Vamos lá… “Tricycle” do Flim & The BB’s, “The Night Fly” do Donald Fagen e três discos do Steely Dan, “Can’t Buy a Thrill”, o de estréia que tem o single “Do It Again”, o “Gaucho” e o “Two Against Nature”.

AA – O “The Nightfly”é o disco de todos os técnicos de som ao vivo, a faixa “I.G.Y” é uma espécie de “Toca Raul!” entre os profissionais. Aqui nos EUA chamam ela do “Free Bird” dos pazeiros, todo mundo usa para alinhar e para demonstrar os sistemas de reforço sonoro…

Remixando a obra de Milton Nascimento no Abbey Road / Crédito: Arquivo pessoal

RM – O disco tem a quantidade certa de graves, médios e agudos e se você está acostumado com a sonoridade da música você consegue alinhar o sistema de PA, eu sempre usei. E eu mixei alguns discos do Milton Nascimento no mesmo estúdio onde foi mixado o “The Nightfly”.

AA – Esse disco é mitilógico. Eu tenho em vinil nacional, cassette nacional, em CD, em SACD japonês e no formato HiRes para downloads. E marquei bobeira, a Mobile Fidelity lançou uma versão em vinil em 45 RPM que na época custava $ 120 e agora você não encontra por menos de $ 1.000,00.

RM – Eu também tenho em Hi-Res. Mas tem também outro disco que eu gostaria de levar, pode? A trilha do espetáculo “Love” do Cirque du Soleil produzida pelo George Martin e o filho dele Giles. É uma viagem você escutar ele…

AA – Eu assiti o show, cada assento tinha dois falantes de surround atrás. Mas se você levar em vinil é um album duplo então são sete no total. Como eu gosto muito de você, está liberado!

RM- Esse seria um puta disco para mixar em Atmos, se é que ainda não foi… Eu tenho um sistema de monitoração da Genelec e a primeira vez que eu ouvi a trilha do DVD mixada em Dolby Digital 5.1 foi uma viagem.

AA – E o que está rolando no seu dispositivo móvel, fala da sua playlist.

RM – Eu ouço tanta coisa cara…

AA –Sério ?

RM – Bruno Mars é muito bom, essa música nova dele “Leaving the door open”, ouve isso, é um R&B com qualidade sonora espetacular. Eu consegui o arquivo mutitrack dela, é impressionante a produção. O disco anterior “24 K Magic”é muito bom. Estou ouvindo também o disco novo da Mandy Moore, o “Silver Landings”, ela é a atriz principal da série “This is Us”.

Eu ouço música coisa antiga também. Etta James. Estou ouvindo uma série da Ella Fitzgerald com o Cole Porter. A qualidade sonora é impressionante para a idade dessas gravações…

AA – O sistema de restauração CEDAR que se usa bastante vem da tecnologia de radiotelescópios que detectam sinais de rádio muito fracos de corpos celestes muito distantes. E entre o radiotelescópio e o corpo tem uma ruideira que agente não imagina.

RM – Tem outra banda, o Jolly Boys da Jamaica, fez muito sucesso na década de 1980. O último disco deles “Great Expectation” é muito bom, de covers, tem uma sonoridade muito boa. A Jamaica tinha estúdios muito bons.

AA – Os ingleses certamente preferiam gravar no sol da Jamaica do que a -20C em Londres, dá para enteder esse movimento. E bebendo um chá diferente…

RM – Tem muita coisa boa que veio de lá.

AA – E qual o melhor show que você já mixou ao vivo?

RM – Eu já mixei tanta coisa…

AA – É por isso que estou entrevistando você… (risos)

RM – São três. Eu mixei o Stevie Wonder na Praia de Copacabana em 2012, o Paul McCartney no Allianz Park em 2019 e o Foo Fighters no Maracanã em 2018, esse último com 114 canais e sem passagem de som!

AA – E a gravação do Rush In Rio? Sou muito grato a você por ter me chamado para trabalhar na gravação, eu chorei…

RM – Esse deu muito trabalho para gravar…

AA – Ter visto o Geddy Lee sentado no chão conectando as pedaleiras e o Alex Lifeson carregando amplificadores com os roadies, é uma aula que muito “rock estar” no Brasil deveria assistir. Você conhece os “rock estar”, aqueles que dão piti, desrespeitam os técnicos e tal.

RM – Os caras são muito profissionais. Mas a minha lista é enorme, dá para escrever um livro.

AA – As lives vieram para ficar? Não é muito mais fácil e rentável fazer uma live para milhões cobrando sei lá, $ 5.00 do que montar aquela infra enorme que vai para a estrada?

RM – O shows ao vivo vão voltar, não é só ver a performance do artista, é um evento. Você pode pedir uma comida no delivery mas não é a mesmo coisa de ir ao restaurante. A comida é a mesma mas a experiência não. Fora que também a coisa das lives saturou, fizeram um monte delas com baixa qualidade técnica, foram mais para fazer merchadising dos artistas do que realizar uma performance musical.

Mas tem coisas maravilhosas, o Paul McCartney fez uma muito boa. Aqui no Brasil também teve gente que fez muita coisa boa.

AA – No show de ano novo do Kiss em Dubai você pagava $ 49,00 para ver o show, e se você pagasse até $999,00 ganhava acesso posterior ao show, o show em Bluray, em vinil, ganhava camiseta, só faltava uma cueca do Gene Simmons…

RM – Eu tentei trazer para o Brasil um sistema que no final do show você poderia comprar um pen drive com a apresentação. Os pen drives eram copiados durante as últimas três músicas do show e se você comprasse tinha a opção de receber as últimas três via download ou numa cópia em CD. Acho que o Seu Jorge chegou a fazer um show com essa posibilidade.

AA – A revista Economist num artigo citou a Banda Calypso como uma inovadora na luta contra a pirataria porque eles davam o CD da banda junto com o ingresso.

RM – Por muito tempo o artista vive de shows, os serviços de streaming pagam muito pouco. A Apple Music costuma a pagar um pouco mais. Mas os artistas hoje estão ganhando mais no YouTube.

AA – Para onde está indo a indústria da música? Você como pioneiro viu o digital nascer no estúdio e migrar para o consumidor, as mídias físicas se tornarem intangíveis, a indústria crescer e amadurecer…

RM – Depois morrer, e ressucitar…(risos) Hoje não dá para uma música virar um hit sem um vídeo. Os grandes hits são os que são mais acessados no YouTube e outras plataformas de vídeo. Instagram, Tik Tok. Não existe mais fazer uma música com simplesmente uma música sem ter um vídeo. Isso no pop, Bruno Mars, Anitta. No futuro ainda vai se continuar produzindo música junto com o vídeo, o vídeo implusiona o hit seja pela polêmica, pela beleza e não só pela música em si. Hoje o tem o Vimeo, a Music Choice, não tem jeito.

E hoje também tem o áudio imersivo, que vai ser muito interessante. A Dolby é uma empresa que constantemente pesquisa novas tecnologias.

E finalmente os grandes eventos, esses vão continuar existindo.

Publicado por Alexandre Algranti

Estudou engenharia, marketing e finanças mas quer mesmo ser jornalista. Continua na busca do fone de ouvido perfeito mas espera jamais encontrar.

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