Acústica e Alta Fidelidade: condicionamento acústico interno Parte 3

Tempos de reverberação ideais

Ouvir som numa sala muito seca – com RT60 bem reduzido – não é uma experiência muito agradável. Tudo é percebido com articulação excessiva e, ademais, a natureza sônica cede espaço a uma condição geralmente reportada como artificial. 

O limite é ouvir música numa câmara anecóica. Experiência sônica das piores que alguém pode ter.

No outro extremo a audição em espaços reverberantes chega a cansar em poucos minutos. Porque os sons se superpõem no tempo, em grande quantidade, prejudicando sobremaneira a inteligibilidade da palavra, e reduzindo a experiência de ouvir música a uma atividade que deixa história, mas não saudade. Os índices de claridade musical tornam-se ridiculamente reduzidos.

Esse quadro sugere que deve haver tempos de reverberação entre esses dois extremos, que nos levem a experiências aurais agradáveis. A prática se incumbiu de mostrar que isso é realmente verdadeiro. Mas como determinar esses tempos ideais?

Os cientistas do Bell Labs endereçaram este assunto. De cara, notaram que a qualidade da audição de ouvintes típicos reportada dependia essencialmente do tamanho físico da sala, de suas propriedades reflexivas e, também, da programação musical. Por exemplo, música sacra e cantos gregorianos não soam bem em salas mortas. Esses gêneros exigem salas reverberantes. Até porque suas composições nascem orientadas para reprodução em catedrais com RT60 consideravelmente longos.        

Então, há muitas décadas passadas os cientistas do Bell Labs reuniram painéis de pessoas compostos de ouvintes considerados experientes, como músicos, maestros e audiófilos, todos com audição medianamente normal, representando o caudal dos ouvidos mais típicos de seres humanos. Esses painéis foram submetidos a audições feitas em inúmetros locais, com grande naipe de volumes físicos internos, desde 50 a 50.000 m³. Em todos esses locais a condição acústica interna era variada desde muito morta – RT60 muito reduzido – para chegar a valores muito elevados, como por exemplo RT60 de até 8 segundos. Ou mais.

Para cada set de parâmetros de uma dada sala, os panelistas ouviam diversos gêneros musicais e, também, locuções masculinas e femininas. Durante as audições, que eram todas críticas, cada um anotava detalhadamente como percebia o áudio e como era impactado, além de avaliar subjetivamente a qualidade de cada programa e de cada locução.

 Como se pode imaginar, depois de muitas audições, essa técnica produziu um oceano de informações. Que foram sistematicamente compiladas e processadas para gerar um meio simples e prático, capaz de orientar sobre quais são, de fato, os RT60 considerados ideais para qualquer caso possível.   

 Esse meio acabou assumindo a forma do gráfico da figura abaixo.

Crédito: Reproducão

Para usar esse recurso, basta entrar com o volume físico da sala no eixo horizontal, subir verticalmente até encontar o segmento de reta correspondente à programação predominante no local considerado e, desse ponto, caminhar para a esquerda até o eixo vertical, onde se pode ler o RT60 ideal para um espaço com aquele volume físico e com aquela programação musical. Esse valor não precisa ser tomado como uma referência absoluta. De fato, o valor comporta uma certa tolerância. O gráfico cobre espaços de 300 m³ a 200.000 m³.

Para salas menores o gráfico abaixo é certamente mais adequado e fácil de usar. A mecânica de aplicação é a mesma do caso anterior.

Crédito: Reproducão

Em geral, quando se chega ao valor ideal, ele é aplicado ao longo de todo o espectro, indistintamente.

 Mas há quem defenda um pequeno incremento das baixas frequências, de acordo com o esse outro gráfico abaixo.

Crédito: Reproducão

Que exibe um fator de 1,5:1 em 100 Hz. Mostro isso aqui por questão meramente didática. Mas enfaticamente não recomendo esta prática em nenhum caso porque ela implica em aumentar o RT60 nas regiões A e B do espectro, que são as mais problemáticas em todo e qualquer espaço. Considero isso uma questão de critério de cada profissional.

Luiz Cysne, PhD, é doutor em física e engenheiro eletrônico.

Publicado por Alexandre Algranti

Estudou engenharia, marketing e finanças mas quer mesmo ser jornalista. Continua na busca do fone de ouvido perfeito mas espera jamais encontrar.