Edgard Scandurra, navegador musical

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Edgard Scandurra é um dos mais versáteis guitarristas da sua geração. Do mod rock do Ira às mais diversas experimentações acústicas e eletrônicas sua discografia é tão ampla quanto original.Conversamos sobre vinil, rádios na internet e fones de ouvido logicamente.

Alexandre Algranti – Edgard, como músico de estúdio e de palco, como você cuida da sua audição?

Edgard Scandurra – Hoje em dia eu tomo mais cuidado com a minha audição, eu procuro ouvir coisas que gritem menos nos meus ouvidos, com menos agudos exagerados.

O volume alto me agrada, claro, mas eu tenho que deixar num nível que eu perceba que ainda não ocorra a distorção nos falantes, no som que eu estou ouvindo. Principalmente no palco quando eu estou tocando. Eu busco cada vez mais um som mais agradável, mais redondo em linguagem figurada, com mais equilíbrio entre graves, médios e agudos.

AA – Qual a importância dos fones de ouvido no seu trabalho?

ES – Os fones de ouvido para mim são muito importantes na gravação. Eu participei da gravação de mais de 90 discos e em 99% das vezes foram muito importantes. Como guitarrista eu sempre gostei muito de gravar dentro da sala e do lado do amplificador onde eu posso tirar uma microfonia, mexer na equalização. De uns anos para cá e um pouco mais velho eu delego mais as coisas, a gente confia mais na equipe que está com a gente, então eu tenho gravado mais dentro da sala e as vezes nem tenho usado tanto o fone, mas eu sempre preferi o fone de ouvido com o som alto, sem ter muita guitarra na mixagem.

AA – Quais fones você utiliza no estúdio?

ES– Eu não tenho muitos caprichos quando eu uso fones de ouvido. Felizmente eu gravo em estúdios muito bons com fones muito bons para trabalhar. Eu uso vários fones de ouvido, confio muito no bom gosto e nas pesquisas que os donos de estúdio vem fazendo, acho que eles procuram dar o melhor para os seus clientes. Então não tem muito um fone que eu prefira assim. Mas eu gosto de fones que não isolem totalmente o som externo para não dar uma sensação meio claustrofóbica. Eu gosto dos sons que extrapolam a concha do fone de ouvido. Não sei se isso representa uma boa qualidade ou não mas eu não faço questão daquele som velado diretamente dentro do meu ouvido não.

AA – E no palco?

ES – Eu não uso monitores intra auriculares no palco, eu tenho uma resistência em utilizar fones no palco porque eu gosto muito de ouvir o som da platéia. E o calor da platéia foi sempre muito importante no meu trabalho. Para cantar refrões, para pedir músicas, para aplaudir, para comentar, para participar, para interagir, então eu não gosto. Eu sei que para cantar é excelente, mas eu prefiro o som da guitarra vindo do amplificador do que vindo do fone.

Eu já fiz apresentações onde era mandatório usar fones por uma questão de estética e de áudio também mas eu prefiro sempre que possível ouvir o som do ambiente mesmo.

AA – E quais fones você usa na rola de relaxar?

ES – Eu uso fones muito simples, a JBL tem fones a preços razoáveis, eu chamo ele de ”rolinhas”pois são aqueles fones que entram no ouvido. Eu acho que eles são esteticamente mais bonitos, mas eu não sei se são mais saudáveis porque o som vai direto para dentro do ouvido. Mas eu não costumo ouvir muito alto. Eu busco bons graves, nos últimos vinte anos eles tem sido muito explorados nas músicas, as frequências mais graves. As vezes com um fone mais barato você perde, fica um som meio plano, sem aquela profundidade que os graves dão. Eu gosto muito desses fones rolhas, são pequenas rolhas que desaparecem no seu ouvido e ficam escondidos. Não como esses fones do formato tradicional e nem esses sem fio também que parecem ser bem legais e modernos mas esteticamente eles ainda não me agradam muito, parece que eu estou usando um brinco. Eu não tenho nada contra mas eu não gosto disso em mim. (risos)

AA – Você consome áudio comprimido?

ES – Eu ouço arquivos em MP3 direto. Meu último disco foi gravado no microfone do meu aparelho celular e masterizado passando por um gravador de fita cassette. Eu acredito muito no áudio relacionado à criação da música, a estética da composição, a timbragem. Claro que a quanto mais impecável a qualidade sonora você tem as sensações musicais todas fortes na sua audição. Mas eu confio muito na personalidade da composição e isso as vezes não requer necessariamente um equipamento top para você reproduzir. Eu não tenho problemas com arquivos em MP3, eu ouço e gravo inclusive.

AA – Vinil ou CD?, eis a questão.

ES – Eu tenho uma preferência pelo vinil desde sempre, mesmo no momento em que o vinil estava entrando em crise e a qualidade dos vinis estava muito comprometida. O vinil era ruim, o peso era muito leve, os discos empenavam fácil, a qualidade das últimas faixas era ruim pois ficavam muito comprimidas fisicamente, os sulcos ficavam muito apertados, existia uma tendência das últimas músicas darem muito chiado, tinha o barulho da agulha. E não dava para viajar nos panoramas, nos estéreos viajantes.

Nos anos 80 e 90, para fabricar os discos que estavam no auge, num momento do mercado muito rico, caiu muito a qualidade do vinil. E o CD apareceu com aquela coisa mais próxima que você tinha no estúdio. Acontece que alguns graves que o vinil reproduzia na música se perderam.

A questão estética é muito superior a do cassette e a do CD, o CD caia no chão quebrava a capa, a capinha era pequena, a impressão do encarte tinha que ser muito boa senão saiam as letras borradas. Um risco no CD as vezes implica na perda total dele, onde no vinil tem aquela faixa, aquele trechinho que você pode lavar, pode cuidar. Você pode ajustar o peso da agulha e isso pode salvar o seu disco. E o charme do chiado do vinil, parece que dá um carimbo na sua música de algo realizado sabe? O charme do vinil é imbatível.

Hoje em dia eu não tenho quase mais nenhum CD na minha casa. Mas eu sei que ainda existe mercado para isso. O meu último disco eu lancei no Spotify, no Deezer, na Apple Music, eu fiz uma vaquinha virtual para fazer o vinil e eu fiz até uma fita cassette, eu adoro fita cassette também, e não pensei no CD, tinha muita gente me cobrando, ou seja, existe um mercado para o CD ainda aí. Eu reconheço a qualidade e não tenho nada contra. Só acho que essa profundidade do vinil, o ritual de você pegar um disco e acabando o lado A você virando para o lado B, e o lado B ser realmente mais alternativo tem tudo haver com o conceito da criação, da composição, do pensamento de um álbum, esse espírito de álbum eu acho muito legal que foi se perdendo, foi virando cada vez mais singles né?. Playlists e coisas assim. Eu adoro alguns, o conceito, adoro discos que traziam uma justificativa para o lado A e o lado B.

AA – Quais cinco discos você levaria para uma viagem a Marte?

ES – Eu gostaria de fazer várias viagens para poder levar mais discos. Ou que fosse mais gente para poder trocar os discos durante a viagem. Eu levaria o ”Flowers” dos Rolling Stones, o ”Led Zeppelin I”, o”Geraes” do Milton Nascimento, qualquer um dos primeiros discos do Yes e o ”Idea” dos Bee Gees. E iria ficar ouvindo esses discos até uma marciana pedir para eu parar…(risos)

AA – O que está rolando na sua playlist?

ES – Joe Meek, aquele produtor inglês do final dos anos 60, tem um disco dele chamado ”I Hear a New World”, uma coisa com mais de 50 anos que eu não conhecia. King Crimson e outras coisas parecidas com eles. Eu voltei a ouvir Bee Gees, eu amo o Vince Malone, o guitarrista da primeira fase, descobri que ele é uma das maiores influências na minha guitarra. Tem um aplicativo chamado Radiooooo.com que é um aplicativo que não tem algoritmo, não fica te perseguindo querendo apresentar coisas, mas tem muita coisa francesa, tem muita coisa africana, tem um eletrônico africano que vem lá dos anos 60 muito interessante que aparece muito nesse aplicativo que eu gosto muito de ouvir.

Publicado por Alexandre Algranti

Estudou engenharia, marketing e finanças mas quer mesmo ser jornalista. Continua na busca do fone de ouvido perfeito mas espera jamais encontrar.

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