Acústica e Alta Fidelidade: Referência Sônica

Crédito: Cysne Sound Engineering

Acústica só faz sentido se há um ou mais pares de ouvidos no pedaço. Por isso, antes de entrar nos meandros da acústica tenho que retocar o termo “referência sônica”, mencionado na coluna anterior.

Referência Sônica é uma régua que você leva para “medir” a qualidade sônica de qualquer lugar que queira. A régua física é hardware. Já a referência sônica é puro software. Nada a ver com programas escritos a partir de zeros e uns. Sequer é uma sequência de instruções.

Referência Sônica é um conjunto de atributos psicofísicos dos ouvidos humanos que, a partir de um dado patamar, só é adquirida com muito treinamento. Um longo cultivo da educação auditiva. Como músculos e condicionamento físico, que são desenvolvidos com o tempo em academias. Aos poucos, os predicados aurais vão sendo absorvidos pelos ouvidos e cérebro e, na medida do possível de cada indivíduo, “registrados”.

Mas não me interpretem mal. Não estou dizendo que referência sônica supimpa é indispensável. Não mesmo. Qualquer um continuará curtindo música ao vivo e mecânica com o mesmo entusiasmo de sempre. Contudo, a referência elaborada permite ouvir muito mais do que sem ela. É como se aplicássemos um potente binóculo aos ouvidos e turbinássemos a percepção auditiva.

Ouvidos treinados começam a identificar eventuais contratempos já na etapa de escolha dos instrumentos musicais. Passam pela seleção dos microfones e posicionamentos espaciais nas captações, avaliam o grau de entusiasmo e de virtuosismo dos músicos, prosseguem com senões de gravações feitas com níveis muito baixos ou muito elevados, identificam distorções, continuam com a qualidade técnica do material captado, com a qualidade da mídia utilizada, prosseguem com a caça às possibilidades de problemas de mixagem, desnudam transtornos de masterização e outros, que dizem respeito ao estúdio e à pós produção.

Depois disso, a referência sônica é utilizada na apreciação da qualidade da música, abrangendo melodia, harmonia e tempo. Investiga arranjos, especialmente instrumentos concorrendo nas mesmas bandas e questões de níveis relativos. Como vozes mascaradas por acompanhamentos ou vozes submersas no contexto musical. O mesmo vale para backing vocal e para naipes de instrumentos. Referências sônicas muito evoluídas podem dissecar o ensemble, predicado alijado das gravações multipista porque tipicamente é suprimida a acústica única da banda. Ao invés disso há tantos “ambientes acústicos” quantas são as pistas.

Até que entra em cena a qualidade intrínseca da mídia. Referências aprimoradas descartam mp3, AAC e assemelhados a favor de wav, FLAC e ALAC. Audiófilos de quatro costados preferem vinil. Um LP produzido no iniciozinho da vida útil do estampo tem mais qualidade que o elepê produzido na véspera da aposentadoria desse mesmo estampo. Quem julga essa diferença de qualidade? Apenas uma referência sônica  acurada.

Ouvidos treinados também são usados para aferir equipamentos. Toca-discos e arquivos digitais, entre outras fontes. Pré-amplificadores e o uso indevido de filtros. Especialmente processadores analógicos ou digitais. Amplificadores. E finalmente, as caixas acústicas. Nano mudanças das posições das caixas acústicas na sala costumam produzir resultados sônicos bem diferentes. O que deve ser levado em conta porque isso favorece ou prejudica caixas acústicas cuja performance sônica intrínseca é sempre a mesma.

No limite, a referência sônica é empregada para discernir nuances que resultam da combinação do que os equipamentos entregam com a acústica da sala. Quanto mais educados são os ouvidos mais esses matizes são percebidos com facilidade. Incluindo as muitas sutilezas do palco sonoro.

Na década de 80, quando comecei a treinar sonoplastas na Rede Globo de TV, notei que só teria sucesso se pudesse trabalhar os ouvidos desses profissionais. Foi quando produzi o EASY – Programa de Treinamento Auditivo. O primeiro programa de treinamento auditivo do mundo totalmente em português. Valor atual R$ 240,00 (poucas unidades em estoque). Até breve! 

Luiz Cysne,PhD é doutor em física e engenheiro eletrônico.

Conexão Revista Backstage

A Revista Backstage cobre as tecnologias de produção musical e som ao vivo desde 1988.

Conheci o editor Nelson Cardoso em 1991 e de cara faturei uma credencial para cobrir o show do Luciano Pavarotti e entrevistar o Alexander Thornton, o seu engenheiro de som e pioneiro na indústria das caixas acústicas para shows desde a década de 1970.

Desde então foram entrevistas memoráveis com gigantes como Alan Parsons, George Clinton, Henry Rollins, Jean Luc Ponty, Rick Wakeman, Robert Moog e Dr. Timothy Leary, estes últimos dois grandes heróis meus.

A partir desse mês volto a escrever para a Backstage onde também irei postar aqui.

A primeira entrevista será com o Stephen Mallinder, vocalista da banda cult Cabaret Voltaire, o Kraftwerk britânico.

Aguardem…

Gui Lima, tecnologista musical

Crédito: Arquivo pessoal

Gui Lima é baixista, tecladista, produtor fonográfico, especialista em tecnologia musical e editor do site homestudiolivreproaudio.com. Conversamos sobre tecnologia musical e fones de ouvido.

Alexandre Algranti – Gui, como produtor musical, como você cuida da sua audição ?

Gui Lima – Eu nunca trabalho com o volume socado. Com a idade a gente naturalmente vai perdendo um pouco. E as bebidas alcoolicas fazem com que o cara perca a audição mais rápido. Apressa a perda de audição né?

AA – E quando você vai nos cultos, nos shows?

GL – Quando vou num show eu avalio de forma diferente que um cara mais leigo que está indo só para curtir. Eu procuro ficar num local onde eu consiga escutar tudo. Não sou daqueles que vai ficar lá na frente, as vezes tem um subs no chão e você vai ouvir pancadas de grave sem definição. Se você está mais para trás você ouve tudo mais natural, mais nítido. Não é nem só a questão de cuidar da audição mas de escutar melhor também.

AA – E qual a importância dos fones no seu trabalho?

GL – No meu caso, e levando em conta as mixagens e as masterizações, o fone é responsável por 50% do meu processo de produção. Claro que eu também ouço nos meus monitores, mas quando eu tenho que avaliar um material eu uso os fones.

AA – Quais fones você utiliza no seu estúdio.

GL – Eu uso o Edifier 840 e o AKG P414, esse último para avaliar material no meu celular. O Edifier eu uso para curtir música também, até porque o AKG tem um certo reforço nos graves. Não que isso seja ruim, para tocar ao vivo contrabaixo e bateria é muito bom. Mas para curtir música eu prefiro o Edifier pois ele soa mais flat.

AA – Você ouve arquivos em áudio comprimido?

GL – Aqui no estúdio, ao renderizar um trabalho em WAV e em MP3 a gente sente diferenças bem consideráveis. Mas muitas vezes esse arquivo comprimido vai ser o arquivo que vai ser consumido. Então mesmo que a gente trabalhe no formato WAV na estação de áudio digital com tudo chegando lindo, e mesmo que o MP3 tenha perdas, a gente precisa do MP3 para avaliar como o usuário vai ouvir.

AA – Você é muito ativo no movimento de home studio, dos profissionais que gravam em casa. Quais as dicas para quem quer começar nesse mundo?

GL – A tecnologia avançou muito mas você encontra muito na internet que com uma mesa de som básica você pode tirar som de estúdio grande. Com celular você tira som de estúdio grande. Com equipamentos simples você tira som de estúdio grande.

A principal dica que eu dou é que o cara tem que desmistificar isso porque a coisa não é bem assim. Se o estúdio Abbey Road tem toda aquela coisa não é por acaso. Porque o cara precisa daquele equipamento e vai tirar um som melhor que o meu.

Então a primeira dica é saber o que é preciso para tirar um bom som e ter a consciência de que se alguem promete tirar um som de estúdio grande com um setup básico, simplesmente não vai tirar. É não ser enganado.

AA – E dá para obter um bom resultado sem gastar muito?

GL – Eu tenho uma interface de áudio da SSL, marca de console grande, que custa R$ 2.500,00. Meus monitores Edifier R1280DB custam R$ 1000,00. Eu tenho por opção trabalhar com softwares originais de produção então já investi, junto com o computador, mais de R$ 10.000,00. Mais R$ 2.000,00 em microfones. E mais uns periféricos da dbx e da Yamaha. Então o meu investimento total para obter um bom resultado está na casa dos R$ 20.000,00.

O investimento é proporcional ao resultado, então não adianta eu querer investir pouco. Mas uma coisa importante é o conhecimento, se eu tenho mais conhecimento vou tirar um som melhor de quem mais equipamento que eu. Tem caras que usam os prés de microfone Avalon, por exemplo, um super produto, mas que não tiram o mesmo som que eu tiro.

AA – Dá uma lista básica de equipamento…

GL – Eu iria com os microfones de entrada da AKG, o P120 e P420, e os da Audio-Technica, o AT2020. Com essas duas marcas dá para começar. Uma interface Focusrite 2i2 ou 2i4 da primeira geração. Um par de monitores Edifier ou JBL, estão falando muito bem dessas duas marcas. E finalmente um fone Edifier H840 ou o TASCAM TH-7. Tudo amarrado no software de gravação Reaper.

AA – Você curte mais vinil ou CD?

GL – A sonoridade que eu tenho na minha cabeça é do vinil, porque eu ouvia muito vinil desde a década de 1970 até a década de 1990. A questão com ambos os formatos é você ter o produto físico nas mãos. Eu ouço 50% e 50% esses dois formatos.

AA – Você foi convidado para um gravar um artista em Marte. Quais cinco discos você levaria na mochila?

GL – Difícil rapaz! Eu sou do Gospel mas ouço muita música secular. Tem uma banda de rock, o Stryper…

AA – Sim, inclusive gravaram “Shining Star” do Earth Wind & Fire que é sensacional…Procura depois, ficou monstro.

GL – Eu levaria o “To Hell With The Devil” do Stryper. Nessa semana estava escutando umas coisas do Bee Gees, então eu levaria uma coletânea de hits, eu acho os caras muito bons. Quem pensa muito em musicalidade como eu levaria um álbum do Michael Jackson, qualquer disco dele. E também uma coletânea da Whitney Houston, eu acho ela espetacular.

AA – Só você…(risos)

GL – E por último qualquer disco do Ed Motta, por causa da musicalidade, da pegada toda ali.

AA- Você já ouviu falar no Moacir Santos, o Duke Ellington brasileiro? Um pianista e maestro Negro que fez carreira nos Estados Unidos, você ia curtir muito o som dele, é a sua cara… O maior jazzista de todos. deixa Toms e Joãos bem para trás…

GL – Não conheço mais vou atrás. Minha irmã me falou do filme “Green Book” sobre outro pianista Negro.

AA – Esse filme é muito bom, é sobre o pianista Don Shirley, infelizmente trata de um momento triste da história do sul dos Estados Unidos mas o filme é foda. Mas você tem que assistir o filme “Ray” do Ray Charles também.

GL – Vou atrás.

AA – E o que está rolando na sua playlist?

GL – Kirk Franklin, esse é top do gospel americano, Fred Hammond, Michael W. Smith, Ron Kenoly e Abraham LaBoriel, gosto muito desses caras.

AA – Qual o show que você mais curtiu?

GL – Os do White Cross e do Bride no Ginásio da Portuguesa em 1992. Tinha o vocalista e guitarrista Rex Carroll do White Cross que tocava muito. Foi a turnê do album “In the Kingdom” que eu gosto muito da sonoridade. E tinha o vocalista Dale Thompson do Bride que atingia um agudo top. Foram dois shows espetaculares que me marcaram muito.

AA – Para onde caminha a indústria da música ?

GL – A internet democatrizou muita coisa. Ela abriu um canal de divulgação para quem antes não tinha voz. Isso permite a qualquer artista anônimo mas com muito talento fazer sucesso e alcançar um público bem maior. E obrigou a indústria fonográfica a adotar um novo posicionamento com relação aos artistas. O modelo tradicional das gravadoras foi muito impactado, elas perderam muito a função de “gate keeper”, as porteiras cairam…

AA – E qual foi o impacto do streaming?

GL – As gravadoras tiveram que migrar para as plataformas como o Deezer e o Spotify para manter a relevância do seu cast de artistas. E também para encontrar suas novas estrelas.

AA – As lives vieram para ficar?

GL – Sim, acredito que vieram para ficar. Elas também tem o efeito de democratizar o acesso uma vez que em tese elas devem baixar os custos dos ingressos e também os custos de ir a um show, gasolina, flanelinha (risos), estacionamento, cerveja, etc.

Creio que o vai surgir o ingresso virtual que inclusive pode dar acesso ao vídeo do show após o evento, a “meet and greets” também pós show e até o download do disco do artista. Parecido com o que o UFC já vem fazendo. O show do Kiss em Dubai no Ano Novo foi bem assim, quem gastou $900 ganhou um pacote com Bluray, vinil e até uma placa comemorativa. Os caras são f&ˆ$…