DJ Paulo Brown, produtor musical

Crédito: Arquivo pessoal

O DJ Paulo Brown é publicitário e radialista e acompanha a Música Negra no Brasil desde a década de 1970. Seu programa semanal Groovin’ vai ao ar todas as quintas e domingos no app da Rádio Estiva Digital.

Conversamos sobre um passeio com o Public Enemy em São Paulo, a decadência do rap atual e fones de ouvido.

Alexandre Algranti – Paulo Brown, como você cuida da sua saúde auditiva?

Paulo Brown – Eu não ouço música muito alto. A gente ouve a música com a alma, o ouvido é só um acessório. Não tenho o custume de ouvir em música alto. No passado eu tocava muito na noite e era aquele zumbido na orelha por muitos dias que gerava um estresse. Então meus jovens DJ’s, tomem muito cuidado com a sua audição e com a do público também.

AA – Qual a importância do fone de ouvido no seu trabalho?

PB – O fone para mim é muito importante, e eu gosto de fones com um som limpo, sem sobrar grave. Eu gravo muito fora do estúdio então preciso de um fone com boa qualidade, que me ajuda a avaliar a qualidade do material que vai para o ar.

AA – Qual fone de ouvido que você está usando nas suas produções ?

PB – Estou usando um Audio-Technica M50x que ganhei de um brother querido…(risos)

AA – Que bacana! (risos)

PB – O M50x tem um som bem equilibrado, bem limpo também. Para mim é bem satisfatório. Tem um som bem legal. Nao saio de casa sem ele…

AA – Você consome música nos formatos comprimidos como MP3 ou prefere o som em qualidade CD?

PB – Eu ouço mais no padrão CD. Não sou muito ligado em ripar CDs e comprimir para caber no celular. Aliás eu nem uso celular para ouvir música, sou old school, chego em casa e ligo o CD player e o receiver e mando ver.

AA – Vinil ou CD, o que você prefere?

PB – Eu gosto dos dois, do vinil e do CD. O vinil pela parte das capas, tem toda uma direção de arte que eu como publicitário curto muito. Havia na década de 1970 um trabalho gráfico muito elaborado nas capas dos discos que a gente comprava, um lance artístico mesmo.

Mas eu gosto de CD pra caramba, quando o CD entrou eu me adaptei rapidamente no meu trabalho em rádio. Então eu sou meio a meio. Mas tem coisas que soam melhor em vinil para mim. O hip hop tem toda uma estética para se ouvir em vinil.

AA – Te convidaram para gravar um especial do Groovin’ em Marte e são 3 meses de viagem. Quais os cinco discos que você levaria na mala?

PB – Eu levaria o “Uncle Jam Wants You” do George Clinton, o “Journey to the Centre of the Earth” do Rick Wakeman, o “Commodores Live “, puta disco ao vivo, o “Tutu” do Miles Davis e o “Maputo” do David Sanborn e Bob James.

AA – E o que está rolando no seu playlist?

PB – O “Bad Habits”, o novo do Usher, o “Catch a Fire” do Bob Marley, Ziggy Marley, o “Hot Buttered Soul” do Isaac Hayes, vários do Eddie Kendricks, Rick James, Chocolate Milk e “Prince for You”do Prince.

AA – Fala de um show transformacional para você.

PB – Foram tantos… O show do Georg Clinton & the P-Funk Allstars no Free Jazz em 1996, só faltou baixar o disco voador, quase quatro horas de show. Fiquei do lado da caixa e não sei como não fiquei surdo…

AA – Igualmente para mim, foi monstruoso. Virei uma nova pessoa depois desse show…

PB – Uma puta vibe dos caras, uma musicalidade, e eles se acharam bem no palco, foi sensacional.

AA – Como sugiu o Groovin? É provavelmente o melhor programa de Black Music que temos no Brasil hoje.

PB – Eu criei o Groovin’em 1990 a convite dos caras da Revista Bizz, o Carlos Miranda, o Richard Kovacs e do Camilo Rocha. Eles me chamaram em 1991 para cobrir os shows de rap e eu assinei duas matérias para eles.

A idéia deles era fazer uma webradio lá. Eu fiz um piloto que foi um arrebento. Foi no estúdio Atelier do Wander na Bela Vista. Quando me perguntaram qual seria o nome eu falei “groovin’ “, eu criei na hora.

E porque Groovin’? Porque tem toda essa coisa do groove, né? O “groove”é o molho da música, aquela batida que mexe com você, eu via os filmes de blaxploitation da década de 1970 e sempre tinham uns grooves fortes.

E a fita rodou todas as rádios em São Paulo mas nenhuma abraçou… Os caras eram muito desinformados sobre o conceito de groove! Mas quem abraçou foi o Armando Martins da Metrô FM, quando ele ouviu ele me chamou e me contratou para fazer um programa de rap. E assim nasceu o boletim “Metro Music News” três vezes por dia e depois o “Dr.Rap” que bombou a audiência da rádio. Mais o Groovin’ ficou na gaveta, eu não tinha como chegar nas rádios e pá, taí o meu programa, quero comprar um horário e tal…

Mas ái eu cheguei a fazer o Groovin’ em algumas rádios comunitárias, fiz na Rádio Paraísopolis e na The Beat FM, ambas na comunidade de Paraisópolis. E agora ele está aí online.

AA – E onde a gente escuta o Groovin’ hoje ?

PB – Ele está em três emissoras, na Rádio Estiva Digital que é uma webradio via aplicativo, na Hits Brasil FM 93.3 de São Paulo e na Studio Chave em Pelotas. Na web ela vai pro ar as quintas feiras as 21:00 e reprisa nos domingos as 16:00.

AA – Porque o rap/hip hop atual está tão ruim? Porque tanta banda medíocre, tanto som ruim, cantores com Auto-tune e o cara….. O que está acontecendo com a nossa querida, amada e sagrada Black Music?

PB – A Música Negra acontece dos movimentos populares e expressa o que as pessoas estão passando e sentindo, sempre foi assim. E hoje produzir ficou mais fácil, e fica tudo uma porcaria, o cara chega em casa e faz tudo no computador e sai cantando. Se perdeu o sentido da luta, ficou tudo muito fácil, muito plástico. Muitos hits das antigas tem um fundo político. E hoje a música está sem pé nem cabeça e os jovens estão sem rumo.

AA – Sempro falo do DEVO e a desevolução, a tecnologia nos levando para trás…

PB – Muita quantidade e pouca qualidade. O rap dos anos 80 tem uma conversa muito mais sadia, hoje as músicas estão muito jogadas. A música está meio sem rumo.

AA – Quando falo que dei uma volta em São Paulo no ônibus do Public Enemy com o Paulo Brown me chamam de mentiroso… Que troquei idéias com o Chuck D, o Flavor Flav e o Terminator X.

PB – Aquela balada foi foda(risos), ter sido o MC e tradutor do primeiro show dos caras no Brasil foi um ponto alto da minha carreira. Impressionante os caras, né ? Uma cultura musical enciclopédica monstra.

AA – Eu tomei coragem e perguntei pro Chuck D se o “It Takes A Nation of Millions To Hold Us Back” era o “Electric Ladyland” do rap e ele parou para pensar e deu risada… E o Flavor falando das bandas que influenciaram ele, fui correndo comprar os discos do Rare Earth…

PB – Diz a lenda que o disco era para ser o “What’s Going On” do rap, a obra prima pacifista do Marvin Gaye, mas com uma pegada mais combativa. Mas tem um que de “Electric Ladyland” sim, um apanhado da Música Negra em um disco igual o que o Hendrix fez.

AA – O que fez o Public Enemy ser o grande ícone rap?

PB – O Public Enemy acertou na veia as letras. Tinha tudo haver com o momento, a música tem história. Escreveram as letras certas que o mundo queria ouvir. Conseguiram musicalizar o que estava rolando no mundo na época. Na letra, na harmonia, batidas e rimas, tudo direitinho, sai da frente que o fenômeno chegou. As letras falavam do momento to mundo, acertaram na mosca.

AA – E quem vai ser o próximo Public Enemy?

PB – Por enquanto não estou vendo nada. Tá difícil. O momento do mundo é outro, essa coisa da tecnologia, é difícil alguem se destacar, eu não tenho visto ninguém. Eu vejo o pessoal trabalhar mais a imagem mais não dá… Ia citar nomes mas melhor não…

AA – Os bailes blacks vão voltar ou vai rolar via lives ?

PB – A emoção dos bailes blacks ao vivo é outra coisa, você encontrar todo mundo. As lives são muito frias, não consigo imaginar isso. Acho que o povo está louco para sair na rua, encontrar as pessoas, vai pegar fogo. O povo está querendo participar dos eventos e curtir a vida. Essa tecnologia que inventaram é legal mas não é a mesma coisa.

AA – Qual serviço de streaming você está ouvindo?

PB – Não assino serviços de streaming, eu prefiro as rádios online, tem duas Nova York que eu gosto, a WBGO 88.3 que toca jazz, a WBLS 107.5 que é uma rádio black mas está mais ou menos.

Acústica e Alta Fidelidade: Referência Sônica

Crédito: Cysne Sound Engineering

Acústica só faz sentido se há um ou mais pares de ouvidos no pedaço. Por isso, antes de entrar nos meandros da acústica tenho que retocar o termo “referência sônica”, mencionado na coluna anterior.

Referência Sônica é uma régua que você leva para “medir” a qualidade sônica de qualquer lugar que queira. A régua física é hardware. Já a referência sônica é puro software. Nada a ver com programas escritos a partir de zeros e uns. Sequer é uma sequência de instruções.

Referência Sônica é um conjunto de atributos psicofísicos dos ouvidos humanos que, a partir de um dado patamar, só é adquirida com muito treinamento. Um longo cultivo da educação auditiva. Como músculos e condicionamento físico, que são desenvolvidos com o tempo em academias. Aos poucos, os predicados aurais vão sendo absorvidos pelos ouvidos e cérebro e, na medida do possível de cada indivíduo, “registrados”.

Mas não me interpretem mal. Não estou dizendo que referência sônica supimpa é indispensável. Não mesmo. Qualquer um continuará curtindo música ao vivo e mecânica com o mesmo entusiasmo de sempre. Contudo, a referência elaborada permite ouvir muito mais do que sem ela. É como se aplicássemos um potente binóculo aos ouvidos e turbinássemos a percepção auditiva.

Ouvidos treinados começam a identificar eventuais contratempos já na etapa de escolha dos instrumentos musicais. Passam pela seleção dos microfones e posicionamentos espaciais nas captações, avaliam o grau de entusiasmo e de virtuosismo dos músicos, prosseguem com senões de gravações feitas com níveis muito baixos ou muito elevados, identificam distorções, continuam com a qualidade técnica do material captado, com a qualidade da mídia utilizada, prosseguem com a caça às possibilidades de problemas de mixagem, desnudam transtornos de masterização e outros, que dizem respeito ao estúdio e à pós produção.

Depois disso, a referência sônica é utilizada na apreciação da qualidade da música, abrangendo melodia, harmonia e tempo. Investiga arranjos, especialmente instrumentos concorrendo nas mesmas bandas e questões de níveis relativos. Como vozes mascaradas por acompanhamentos ou vozes submersas no contexto musical. O mesmo vale para backing vocal e para naipes de instrumentos. Referências sônicas muito evoluídas podem dissecar o ensemble, predicado alijado das gravações multipista porque tipicamente é suprimida a acústica única da banda. Ao invés disso há tantos “ambientes acústicos” quantas são as pistas.

Até que entra em cena a qualidade intrínseca da mídia. Referências aprimoradas descartam mp3, AAC e assemelhados a favor de wav, FLAC e ALAC. Audiófilos de quatro costados preferem vinil. Um LP produzido no iniciozinho da vida útil do estampo tem mais qualidade que o elepê produzido na véspera da aposentadoria desse mesmo estampo. Quem julga essa diferença de qualidade? Apenas uma referência sônica  acurada.

Ouvidos treinados também são usados para aferir equipamentos. Toca-discos e arquivos digitais, entre outras fontes. Pré-amplificadores e o uso indevido de filtros. Especialmente processadores analógicos ou digitais. Amplificadores. E finalmente, as caixas acústicas. Nano mudanças das posições das caixas acústicas na sala costumam produzir resultados sônicos bem diferentes. O que deve ser levado em conta porque isso favorece ou prejudica caixas acústicas cuja performance sônica intrínseca é sempre a mesma.

No limite, a referência sônica é empregada para discernir nuances que resultam da combinação do que os equipamentos entregam com a acústica da sala. Quanto mais educados são os ouvidos mais esses matizes são percebidos com facilidade. Incluindo as muitas sutilezas do palco sonoro.

Na década de 80, quando comecei a treinar sonoplastas na Rede Globo de TV, notei que só teria sucesso se pudesse trabalhar os ouvidos desses profissionais. Foi quando produzi o EASY – Programa de Treinamento Auditivo. O primeiro programa de treinamento auditivo do mundo totalmente em português. Valor atual R$ 240,00 (poucas unidades em estoque). Até breve! 

Luiz Cysne,PhD é doutor em física e engenheiro eletrônico.

Conexão Revista Backstage

A Revista Backstage cobre as tecnologias de produção musical e som ao vivo desde 1988.

Conheci o editor Nelson Cardoso em 1991 e de cara faturei uma credencial para cobrir o show do Luciano Pavarotti e entrevistar o Alexander Thornton, o seu engenheiro de som e pioneiro na indústria das caixas acústicas para shows desde a década de 1970.

Desde então foram entrevistas memoráveis com gigantes como Alan Parsons, George Clinton, Henry Rollins, Jean Luc Ponty, Rick Wakeman, Robert Moog e Dr. Timothy Leary, estes últimos dois grandes heróis meus.

A partir desse mês volto a escrever para a Backstage onde também irei postar aqui.

A primeira entrevista será com o Stephen Mallinder, vocalista da banda cult Cabaret Voltaire, o Kraftwerk britânico.

Aguardem…